Áspera Seda

A espera se envereda,
O antídoto se envenena,
A insinuação se confirma,
Fora do set é nossa cena.

Personagens sem cenário,
Um roteiro sem um texto,
O conjunto separado,
Um dueto sem contexto.

Meras associações
Citadas sem nexo,
O reflexo de mim
Colocado em anexo.

Áspera Seda, Áspera Seda,
Me absolve, me condena,
Áspera Seda, Áspera Seda,
Me envolve, me sustenta.

Abrigado ao relento,
Apagada a centelha,
Um carinho,
Um acalento,
Rosa vermelha.

Lágrima seca,
O norte no sul,
A chuva impermeia,
A Rosa azul.

Áspera Seda, Áspera Seda,
Me absolve, me condena,
Áspera Seda, Áspera Seda,
Me envolve, me sustenta.

A lágrima seca,
Apaga a centelha,
Áspera Seda,
Rosa Vermelha,

Este é meu reflexo,
Colocado em anexo.
Minha herança é essa.

Áspera Seda, Áspera Seda,
Me absolve, me condena,
Áspera Seda, Áspera Seda,
Me absorve, me alimenta,
Me envolve, me sustenta.

Áspera Seda, Áspera Seda.

(Compositor: Michel F.M.) ©

 

Aspirante a Vilão

Berto se revoltou completamente ontem, um surto capaz de mudar toda a sua trajetória até então, mas ele não mudou. Era imutável, era fechado, era Berto. Pediu demissão de mais um emprego entre inúmeros no último ano, eremita insaciável, insatisfeito, inconsolado. Mandou seu superior pro inferno, engolia ofensas a meses, Berto não nasceu para se submeter, era insubmetível. Jogou uma caixa de arquivos na cara do canalha que lhe ordenava ordens insensatas, um cretino munido de idiotices hierárquicas.

Berto virou um demônio e pediu a Deus que lhe desse discernimento para não cometer ali uma atrocidade. Aquela saleta fedia uma loção barata e desodorante vencido misturado com cheiro de banheiro e desinfetante caseiro. Divisórias mofas exerciam sua tarefa mal sucedida de serem repartições, isolando os ambientes, descumprindo a missão de ocultarem as conversas em voz alta e os berros exaltados de chefes e subordinados neuróticos e estressados.

Aquele bairro tinha se tornado uma grande privada satélite, anexada ao centro velho e abandonado da cidade, um território esquecido por seres civilizados, antro supremo das mais relevantes categorias do tráfico, drogas, armas, contrabandos e piratarias de todos os gêneros imagináveis, prostituição. O lar do crime rigorosamente organizado, refúgio de marginais, imigrantes, políticos cassados, putas, travecos, ligeiras, miseráveis e mais miseráreis, mas nenhum culpado.

Dizer que não é fácil ser honesto no paraíso dos corruptos seria inocência demais, honestidade e dignidade não existem, são basicamente impossíveis de serem praticadas, num lugar como este. O próprio ar em si é corrompível, as ruas não alimentam o crime, o crime alimenta as ruas, sem ele não há forma de vida aqui; e ninguém é culpado.

(Autor: Michel F.M.) ©

Até o Fim

No instante em que não tiver mais regras,
Não teremos mais o que infringir,
Nesse instante que será sem metas,
Não teremos mais para quem fingir.
Queria estar satisfeito,
Para que não surgisse o efeito, da decepção.

Se foi, se foi o que eu tinha,
Se foi, a minha alegria (se foi).

E hoje, eu ainda vivo,
E hoje, eu ainda sinto, a sua falta.
Apesar dos pesares,
Iludo-me em te encontrar.

As cortinas se fecharam,
O espetáculo acabou,
E mesmo com a chuva,
O fogo se alastrou.

Se foi, se foi o que eu tinha,
Se foi, a minha alegria (se foi).

Depois daquelas trevas,
Minha vida se modificou,
Perdi o que eu tinha,
Mas encontrei quem sou,

Se foi, se foi o que eu tinha,
Se foi, a minha alegria (se foi).

Mas a partir de hoje,
Vamos viver assim; até o fim.

(Compositor: Michel F.M.) ©

Até que ponto ?

Respeite um amor, abrace um amigo,
Preste um favor, esteja bem consigo,
Preserve uma flor, cultive um sorriso.
Curta a emoção do primeiro encontro,
Depois da sensação, me diga: até que ponto ?

Até que ponto as coisas vão ?
Até que ponto as coisas vem ?
Até que ponto as coisas são ?
Até que ponto eu não sei !

Mas vou tentar ser campeão,
Nessa disputa pelo Éden.

O paraíso está tão perto,
Não podemos desistir,
Sei que a incerteza é o certo,
Se entrar tem que sair.

Portas para escolher,
Janelas para inibir,
A fechadura adequada,
Um enigma a descobrir.

Peregrinando nessa selva,
Estou tentando encontrar,
Vou buscando minha Eva,
Para enfim me completar.

Até que ponto as coisas vão ?
Até que ponto as coisas vem ?
Até que ponto as coisas são ?
Até que ponto eu não sei !

Mas vou tentar ser campeão,
Nessa disputa pelo Éden.

Acho que algo acrescentei,
Depois desse breve conto,
Não sei se serviu pra alguém,
Mas se serviu, até que ponto ?

(Compositor: Michel F.M.) ©

Beijos Cênicos

Sinceramente fingidos,
Em nossa ilustração,
Individualistas acomodados,
Originam mútua identificação.

Nossos beijos cênicos,
Falsos e adequados,
Pacíficos e bélicos,
Beijos roubados,
Formam boas lamentações.

A desconfiança,
É o melhor fruto
Que por nós colhi.

Ácido e amargo,
Decretou o luto,
Suturando o corte
De seu bisturi.

Nossos beijos cênicos,
E inadequados,
Fixos e ecléticos,
Beijos Roubados,
Formam boas lamentações.

Lamentavelmente
Isso ainda abate,
A ausência de
Recordações.

Prefiro recordar
O inadequado,
Do que revelar
Não ter recordado.

Nossos beijos cênicos,
E dissimulados,
Imorais e éticos,
Beijos Roubados,
Multiplicam nossas divisões.

Foram beijos cênicos,
Mas de qualquer jeito,
Mesmo que roubados,
Ainda foram beijos.

(Compositor: Michel F.M.) ©

Bem-te-vi (voando por aí)

Como a gota na folha,
Em um breve chuviscar,
Como o aroma da flor,
Na primavera a brotar,

Assoviam os bem-te-vis,
Lá na copa da cerejeira,
Se banhando no chafariz,
Namorando a noite inteira.

Somos dois
Bem-te-vis,
Voando por aí.

Minha frágil passarinha,
De você eu vou cuidar,
Vou amá-la com carinho,
Protegê-la e guardar,

O inverno chegará,
Vem de longe e sozinho,
Mas o amor não faltará,
Pra esquentar nosso ninho.

Somos dois
Bem-te-vis,
Voando por aí.

A metamorfose
De cores e sons,
A fusão de um cristal
Em inúmeros tons,

Eu e Você
Como a Água na Terra,
Um abraço e um beijo
Onde tudo se encerra.

Somos dois
Bem-te-vis,
Voando por aí.

(Compositor: Michel F.M.) ©

Bianca

Resistência movida à paixão,
Paixão pelo que a faz contente,
Contentamento que a satisfaz.

Para ela aquele objeto oval,
Que uns chamam de bola,
Não é, nem será banal.

A prática traz precisão,
Deixa de ser esporte
Exercício ou distração,
Transmutando-se em
Colírio.

(Autor: Michel F.M.) ©

Brilha Graciosa

Em sua roda de amizades,
Era querida e engraçada,
Realizava varias bondades,
Sua presença era prezada,

Compreensiva, encantadora,
Esperta, investigadora,
Queria ser médica,
Ginasta e cantora.

Bem mais madura
Que as outras meninas,
A vida foi dura
E a fez menos manhas,

Se propunha a ousar e auxiliava,
Estendia a mão onde estava,
Prestativa, precavida, delicada,
Nunca mais seria forçada a nada.

Ajudava a mamãe no bordado,
Segurava o rolo de linha,
Ficava atenta a cada traçado,
Da rede ao rendado até a barrinha.

Pintava o bordado,
Ornava a borda,
Combinava sua roupa
Com a da bonequinha,

A pequena brincava,
Cantava, pulava,
Imaginava e sabia,
Nada mais a detinha.
Nada mais a deteria.

Brilha Graciosa !
Brilha o quanto quiseres brilhar.
Pequena Preciosa !
Motivo maior prum pai se orgulhar.

(Compositor: Michel F.M.) ©

Brükel Gonnifer

No recôncavo gélido à extremidade noroeste do poderoso Fiorde, estava Gonnifer o líder do grande clã. Ele observava solitário, precipitando o que estava por vir, como um falcão visualizando a estepe antes de seu desfecho vitorioso, porém não menos sangrento.

O sereno orvalhado brindava mais uma madrugada, açoitando suas costas desprotegidas; as vértebras latejavam, dores terríveis penetravam sua medula. A transposição empreitada pela horda, por entre as colinas, sugara seus últimos esforços; separando sua pele da friagem apenas uma fina camada de lã.

Mas nenhuma adversidade imaginável, seria capaz de tomar-lhe a atenção e o furor, nem mesmo a geada castigante que se precipitava a leste, à qual já se podia sentir num leve sopro cortante colidindo-se contra a face.

Ele estava embebido pela cólera, que lhe tomava os vagos e súbitos pensamentos, transformando-se a cada passo... Seus liderados apostos numa formação impecável, espalhavam-se através da estepe. Estava a instantes do entardecer mais truculento de sua existência.

Como fora ensinado por seus antepassados no longínquo Reino de Túrrilas de Árbara, era preciso resistir. O veneno da lança atravessada em seu tórax descendia de uma planta maligna de tempos antigos, seria incurável em qualquer outra região do mundo conhecido, mas naquele local sagrado, existia uma única planta capaz de salvá-lo.

Esperançoso, Gonnifer arrancava com os punhos, as quiçacias enterradas a meio metro de profundidade no solo íngreme do penhasco, na intenção de que uma daquelas ervas fosse a profetizada Raiz Vermelha.

Seus últimos pensamentos eram alimentados com esforço sobre-humano, sendo voltados à sua amada Lorelayne Grantelás. Fez o impossível para visualizá-la em sua forma mais doce e conseguiu. Ela cantarolava em médio tom à capela, enquanto separava os melhores grãos da cevada em uma vasilha argilosa e os demais descartava numa tapeçaria tecida em junco; junto dela sua pequenina filha e herdeira Chrysanthemun.

Recobrou a consciência, restava a Gonnifer alguns minutos de vida, o envenenamento tomava-o por completo, instantaneamente um raio de luz transpôs a montanha velada, por entre a cerração; avistou seus antepassados.

Não mais sentiu seus membros, a dor pela primeira vez em sua existência havia abandonado seu corpo. Gonnifer sorriu, estava feliz após muito tempo de obscuridade e tenebrismo; feliz, por ter encontrado o que desejava, pois não precisaria mais de antídoto.

(Autor: Michel F.M.) ©